Oscar 2015. “por una cabeza”!

(Artigo sem spoilers. Pode ler tranquilo!)

Em abril do ano passado, depois de assistir a cerimônia de entrega do Oscar pela TV eu resolvi que veria todos os filmes de uma vez só para expressar a minha opinião, e enquanto escrevia o texto com a minha resenha, eu fiz um formato de análise segmentados por “decepção”, “bom filme”, “gostei muito” e “filmaço”, e eu resolvi manter essa mesma proposta em 2015 também.

Lotado de indicações de filmes autobiográficos, essa edição do Oscar se destacou pelo equilíbrio. Nenhum bicho-papão, nenhuma obra-prima, mas bons filmes e três filmaços, na minha humilde opinião.

Assisti 15 filmes (do dia 27/01 à 17/02), independente da categoria que estavam. Só deixei de fora “Into the Woods”(Caminhos da Floresta) porque realmente não entrei no clima, apesar da 19ª indicação da Meryl Streep. Mas enfim, vamos as críticas:

Decepção

Quando li e assisti alguns comentários/resenhas falando sobre a ainda desconhecida lista de indicados do Oscar 2015, vi que havia muita controvérsia sobre “Unbroken” (Invencível), filme da diretora Angelina Jolie.

A história é incrível e conta sobre a superação de vida de Louis Zamperini, um atleta olímpico que sofre um acidente de avião quando estava na 1ª Guerra Mundial e cai no mar repleto de tubarões e fica à deriva por 47 dias, quando é resgatado justamente pelos inimigos dos americanos dessa guerra: os japoneses. O argumento é sensacional e a história de superação do Zamperini é comovente, principalmente se levarmos em conta que o filme é baseado em fatos reais.

O resultado na tela, infelizmente, é um filme arrastado, entendiante, que em muitas vezes chega a dar sono. A interpretação do Takamasa Ishihara, que faz o sargento japonês Watanabe que inferniza a vida do soldado Zamperini é simplesmente horrorosa. Ishihara é cantor de uma banda de rock japonesa na vida real, que, ao contrario do Jared Leto, não mostrou talento nenhum nesse filme.

Eu já havia feito uma resenha sobre Boyhood antes de eu tomar a decisão de assistir todos os filmes desse ano. Sempre achei a proposta ousada demais e mesmo depois de conversar com algumas pessoas que gostaram do filme, não consegui ver justificativa do filme ter levado 12 anos para ser filmado.

Bom filme

O nome do filme é “dois dias, uma noite”, mas poderia se chamar também como “cada um com os seus problemas”. O filme belga, todo falado em francês, mostra de forma crua a dificuldade do mundo corporativo moderno e suas relações individuais. Principalmente as dificuldades da protagonista vivida pela excelente Marion Cotilard que esta impecável no papel. Cada vez que ela engolia uma pílula de Xanax era um desespero. Mas provavelmente não levará a estatueta.

Esse seria um ótimo filme se não fosse pela presença do Robert Downey Jr. Não que eu não o ache um bom ator, não, muito pelo contrário, acho ele ótimo. A questão é que depois deIronman, parece que ele é o Tony Stark o tempo todo. O filme é um festival de caras e bocas o tempo todo. Eu esperava um filme de julgamento e ganhamos caretas e piadinhas do Homem-de-Ferro intermináveis.
Enfim, o filme é bom da metade para o fim, quando de fato passa a falar mais seriamente sobre o julgamento, mas é só isso.

Esperei muito ao assistir o trailer do filme Wild. A atuação da Reese Witherspoon parecia que seria bastante dramática, uma vez que a sua personagem percorreria sozinha mais de mil milhas (mais de 1.600Km) numa trilha da costa do Pacífico.

Mas infelizmente, o que vemos é uma mulher chata, entendiante e por mais que eu entendesse a motivação dela ao fazer essa jornada, o filme não consegue imprimir esse sentimento que a impulsiona. Tanto que eu não acredito que a Witherspoon leve a estatueta de melhor atriz.

Visualmente lindo, aliás, lindíssimo, a direção de arte desse filme é impecável! Ralph Fiennes está inacreditavelmente frenético na sua atuação. Com textos gigantescos que são ditos de forma alucinada, contrastando totalmente com sofisticação do hotel. Personagens completamente loucos, e aliás, muitos, muitos personagens e atores fizeram participações especiais.

Já a história não conseguiu me comprar. Nem o argumento. Achei tudo muito confuso e sem propósito. O filme é uma mistura de história de amor, aventura, comédia com uma pitada de seriedade, mas é só.

Gosto gratuitamente do Jake Gyllenhaal, qualquer filme dele! Acho ele um ator corajoso que não tem medo de fazer filmes ousados e com um argumento forte. Abutre se destaca por um falta de ética sem pudor. É uma crítica velada dos paparazzi de celebridades, ainda que no filme estejam falando dos cinegrafistas amadores, mas enfim, o conceito é o mesmo.

Com uma interpretação estranhíssima, o personagem do Gyllenhaal incomoda e ao mesmo tempo estimula a nossa curiosidade como expectadores. Metalinguagem? Claro!

Quem não gosta do jeito bonachão do Ben Affleck levanta o mouse! _0/
Pois é, foi assim que comecei a assistir o filme Garota exemplar, cheio de má vontade por causa dele e fui surpreendido com um bom filme de suspense. O filme vai te envolvendo com as reviravoltas e o tempo todo não sabemos o que realmente aconteceu.

O final é surpreendente e eu sai como se tivesse levado um soco no estômago. Sem dó nem piedade. Parabéns David Fincher pela direção e palmas para a Rosamund Pike pela atuação. Não deve levar, mas valeu muito a indicação.

Como todo filme do ótimo diretor Clint Eastwood, há uma expectativa enorme por parte do público. E claro que eu não fiquei de fora. Mas dessa vez o ex-Dirty Harry errou ao escalar o superestimado Bradley Cooper, que por mais simpático que ele possa ser, é um ator mega limitado. Não há emoção nenhuma em sua interpretação, por mais que o personagem seja um cara pacato.

O fato é que Cooper está de um jeito ou de outro em filmes do Oscar nos últimos anos e eu até agora não consigo entender o porquê. Ainda sim sua má atuação não consegue estragar o filme que conta uma história forte e dramática, e claro, totalmente patriótica, do jeito que os americanos adooooram!

Gostei muito

Medo! Esse era o meu sentimento o tempo todo ao assistir Foxcatcher. Por mais que eu já soubesse tudo da história, é incrível como esse filme te faz grudar na cadeira e deixa você com as mãos suando no final.

Steve Carell está simplesmente assustador no papel do John du Pont. Cada vez que ele entrava em cena eu ficava apreensivo achando que ele ia pegar um troféu da prateleira e dar na cabeça de alguém!
Destaque também para Mark Ruffalo por sua interpretação de lutador Dave Schultz.

É impressionante como o cinema ultrapassa a barreira do entretenimento constantemente. Para sempre Alice é um desses filmes que cumpre o papel de contar histórias do cotidiano de muitas pessoas esquecidas e seus dramas pessoais. Quando terminou o filme eu descobri que eu pouco conhecia sobre de Alzheimer e fiquei chocado com o que ela faz com mente das pessoas e como isso afeta as suas vidas.

Julianne Moore está irretocável na sua interpretação. Sofisticada, articulada no começo, frágil e insegura na segunda parte, quando a doença está mais avançada. Para mim, a estatueta é dela!

A teoria de tudo era o filme que eu mais queria assistir depois de Whiplash. Minha esposa Cida foi quem me apresentou o trailer, antes mesmo da indicação ao Oscar. O filme visualmente é lindo, com uma fotografia e direção de arte muito bem feita, mas o destaque mesmo estão por conta da atuação dos protagonistas do filme.

Eddie Redmayne está incrível interpretando Stephen Hawking. É emocionante ver ele mudando a postura, o jeito de falar, andar, comer com o avanço da sua rara doença. Mesmo quando ele não pode mais falar e quase se mexer, é possível ver o mesmo personagem no olhar do Redmayne. É sem dúvida a minha aposta para o Oscar de melhor ator.

Sua esposa Jane é interpretada pela Felicity Jones, faz uma mulher com muita garra e batalhadora. Um incrível interpretação, mas que não deve levar o Oscar pra casa.

Como a maioria das pessoas, eu também não sabia nada, ou quase nada sobre Alan Turing. Uma enorme injustiça. Que foi muito bem resgatado com um filme que mostra a grandeza de sua obra em vida. Alan foi brilhantemente interpretado pelo bam-bam-bam do momento, Benedict Cumberbacth, que em muitos momentos parecia o Sherlock Holmes da série de TV, mas que no fim, cumpriu muito bem o seu papel.

Ao contrário do “A teoria de tudo”, o fim é bem mais emocionante justamente por como a sociedade preconceituosa acabou lidando com a sua “condição”.

Filmaço!!!

Eu simplesmente ADORO bateria e quando soube desse filme fiquei louco para assisti-lo.

Quando decidi ver todos os filmes do Oscar 2015, ele foi o primeiro que assisti e fiquei abestado com a qualidade musical do mesmo. Jazz é um estilo de música dificílimo. É para poucos mesmo e extremamente preciso. Tanto que Miles Teller (que faz o papel do baterista Andrew Neiman) quanto J. K. Simmons (o insano Terence Fletcher) estão surpreendentes.

Ver o Fletcher humilhando, estressando Neiman durante todo o filme, até a última cena é angustiante e ao mesmo tempo a maior pressão de todos os filmes dessa edição do Oscar. Dizer que a trilha sonora é maravilhosa é chover no molhado, mas enfim, é isso que é.

J. K. Simmons é a minha aposta para o Oscar de melhor ator coadjuvante e acredito que Miles Teller ainda não levará a estatueta pra casa dessa vez.

De longe o filme que mais te faz sair do eixo para pensar. Birdman é metáfora pura (recomendo a leitura do texto do amigo mauro Amaral sobre o filme), e é inacreditável que seja Michael Keaton que interprete Riggan Thomson. A história é praticamente a sua vida, quando ele ficou marcado pelos dois filmes do Batman que fez em 1989 e 1992.

Os plano sequência são o grande destaque do filme. Você se sente um verdadeiro assistente do Riggan e o segue pelos bastidores, palco, camarim e até na rua de cueca praticamente sem cortes. Certamente é uma experiência única esse formato. Isso sem falar na bateria que dita o ritmo das emoções do Riggan.

Destaco também para a interpretação do próprio Michael Keaton que sofre uma pressão enorme de todos os lados e faz o que precisa ser feito. E por fim, o doidaço Edward Norton, a cereja nesse bolo delicioso!

E por fim, o filme que venceu por pouco na minha categoria “filmaço”.
Venceu pela força de uma história contada com enorme coragem. Muitos diretores fariam um Martin Luther King Jr articulado, influenciador, genial. Mas a diretora Ava DuVernay fez a história de um grande humano. Com dúvidas, angústias e incertezas, mas acima de tudo, com foco no seu ideal, consciente da sua importância e responsabilidade.

Selma, é impecável! Não é uma obra-prima, mas abusa de qualidade na direção de arte que nos faz voltar para meados dos anos 60; na sensibilidade da narrativa e claro, na interpretação de seu principal ator: David Oyelowo. Ele simplesmente incorpora M.L.K. com sua impostação de voz nos discurso, na doçura e educação de suas palavras e até no seu sotaque sulista.

Destaque para o elenco de apoio com ‘performances’ espetaculares e na medida certa. Tom Wilkinson com o inseguro Presidente Lyndon B. Johnson; Tim Roth como Governador George ‘batata-quente-na-mão’ Wallace e por fim, destaco a pequena cena da Oprah Winfrey como Annie Lee Cooper que vai pela milésima vez tentar se inscrever como apta a votar. É impressionante como poucas palavras e muita expressão no olhar são capazes de demonstrar anos de humilhação e injustiças.

Enfim, por todos esses motivos eu escolhi Selma como o meu vencedor do Oscar 2015. Acredito que quem ganhará seja mesmo Birdman. O que eu não ficarei triste. Não, muito pelo contrário. Mas na minha resenha, Selma ganha ‘por una cabeza’.

***

E por fim, seguem as minhas apostas (Não os que eu estou torcendo, ok!?) do Oscar 2015:

  • Melhor filme: Birdman
  • Melhor diretor: Alejandro Gonzáles Iñárritu
  • Melhor ator: Eddie Rednayne
  • Melhor ator coadjuvante: J.K. Simmons
  • Melhor Atriz: Julianne Moore
  • Melhor atriz coadjuvante: Meryl Streep

Vamos ver quanto eu ganho no bolão desse ano!
😉

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