Alerta de spoilers
Apesar de a história ser milenar, ainda assim, vou passar por zona de spoilers durante todo o texto, afinal, Odisseia de Nolan é uma nova versão da história de Homero!
"A odisseia da Odisseia!"
Quero começar esse texto usando a expressão usada pela Bia Fiorotto no podcast Cinemático do site B9, que sintetiza bem o desafio técnico que foi fazer esse filme.
“Foi uma odisseia filmar Odisseia!”
Afinal, estamos falando de uma obra com mais de 27.800 versos, e que deu origem a todas as histórias que se sucederam.
Ilíada e Odisseia de Homero já tiveram outras adaptações audiovisuais (Ulysses em 1954, A Odisseia em 1997 e O retorno em 2024) com outros diretores, mas agora foi a vez do aclamado Christopher Nolan, vencedor do Oscar de melhor direção por Oppenheimer em 2024.
O filme é épico, mas ainda assim, divide opiniões!
Há elogios rasgados a favor do diretor, bem como críticas severas sobre suas escolhas, que passam desde o roteiro contemporâneo, a escolha do elenco, e claro, a temida “agenda Woke” tão perseguida pela extrema direita!
Então, vamos lá decupar esse filme:
A dificuldade de adaptação da obra
Que o trabalho era hercúleo, isso todo mundo já sabia, não só pelo volume de conteúdo, mas também pela escrita em hexâmetro datílico, que é um ritmo tradicional de poesia épica grega antiga, além da relação absurdamente intimista e influenciadora dos deuses junto aos personagens e o destino dos seus acontecimentos.
Com esse tipo de material base, se esperava um filme numa produção gigantesca e absurdamente cara. Deuses e monstros exigiriam um primor técnico enorme e com muita computação gráfica!
Roteiro adaptado
É fato conhecido: Os roteiros do Nolan são sempre muito expositivos.
Ele sempre pega um tema complexo e faz uma ou mais cenas com algum personagem explicando para outro sobre a questão com o objetivo de deixar o público inteirado sobre o que está assistindo. Em Odisseia, ele ainda fez isso, porém de forma bem mais discreta.
Já a relação dos personagens com os deuses, Nolan então optou numa produção mais intimista e focada completamente no personagem do Odisseu.
A relação entre deuses e humanos foi praticamente erradicada do filme, sendo apenas Athena a única encarnada, que surge de vez em quando para Odisseu, influenciando de forma bastante sutil seus pensamentos.
Personagens principais
Odisseu (Matt Damon) é o centro de tudo, porém, seu lado astuto, manipulador, agressivo e violento, dá lugar a um Odisseu quebrado, cansado, porém resiliente em voltar ao seu lar.
Já Penélope (Anne Hathaway) tem alguns poucos bons momentos, e transparece o peso de enfrentar a horda de pretendentes não convidados em seu palácio durante anos.
Telêmaco (Tom Holland) mostra a faceta de um filho com um pai ausente, ao mesmo tempo que ocupa um enorme espaço na hierarquia de poder do seu reino, e ele tem consciência disso.
E por fim, Antinous (Robert Pattinson) é um personagem hostil, sujo e desprezível, que amamos odiar!
Personagens secundários destaque
Mesmo com pouco tempo de tela, Athena (Zendaya) tem uma presença sensível e imponente.
Com algum destaque em tempo de tela, Jon Bernthal, entrega um Menelau que serve apenas para explicar para o público a relação conflituosa entre Gregos e Troianos.
O servo Eumaeus, vivido por John Leguizamo, representa a resiliência e fidelidade ao mestre.
Lupita Nyong’o atua sempre com uma presença em tela impactante, por menor que seja o seu papel, que aliás são dois! Helena e a sua irmã gêmea Clitemnestra.
Já Circe (Samantha Morton) tem uma das melhores cenas do filme, e entrega uma performance criativa, usando um jogo de câmeras bastante inventivo.
E por fim, Sinon (Elliot Page), personagem que não existe na obra original, e entrega uma performance muito impactante, e central para a trama em duas cenas importantíssimas do filme.
Sobre o formato IMAX
Aqui o grande ponto que me incomodou no filme!
IMAX é um formato complicado. Tanto que é pouco utilizado. Hoje todos os filmes são gravados no formato digital. A resolução é altíssima, mas ainda assim, nada se compara aos 18k de resolução de um IMAX.
Porém, isso tem um preço alto: As câmeras são gigantescas, muito barulhentas, os rolos precisam ser trocados a cada 3 minutos de gravação, e a edição é completamente manual.
É tão complicado, que todos os diretores que optam por usar IMAX nos seus filmes, fazem com parcimônia e escolhem com muito critério as cenas que vão usar esse formato. Em geral, cenas que necessitam da uma resolução alta para mostrar riqueza de detalhes em tela como uma batalha com muitos figurantes e atores em cena, mas nunca em diálogos intimistas.
Mas Nolan escolheu filmar TUDO em IMAX!
E eu sinceramente, acho que foi uma decisão de tecnologia pela tecnologia, não a serviço da narrativa, pois não faz diferença nenhuma desse formato na maioria das cenas, afinal, só existem 41 salas com projetores IMAX, sendo que o restante das 1.800 salas é adaptado!
Para se ter uma ideia da dificuldade de filmar com IMAX, as cenas de diálogos foram filmadas com espelhos (veja imagem acima) para que os atores pudessem simular que estavam olhando para o personagem, pois as câmeras são muito grandes!
Optar por esse formato, só complicou a produção, mas na prática, apenas algumas cenas se justificam.
Elenco e suas polêmicas
Nolan não se preocupou com rigor histórico ao fazer Odisseia, tanto que o filme é falado em inglês não britânico, e até há uma fala “Ten years on this fucking beach. Let’s go home” no filme.
A consequência é que ele escolheu atores estrelados para o filme, e isso, claro, repercutiu logo que o filme foi anunciado e os primeiros nomes confirmados.
Mas nenhum se comparou a Elliot Page e Lupita Nyong’o.
Só que nós sabemos que as críticas sobre essas escolhas nada têm a ver com o rigor histórico e sim, transfobia e racismo! Dessa forma, nem vou gastar o meu idioma grego para debater! Ambos são atores incríveis e mereceram muito serem escalados!
O ponto negativo para mim é o pouquíssimo tempo de tela que alguns tiveram, como Corey Hawkins, Mia Goth, ou mesmo textos ruins como com Himesh Patel e principalmente Charlize Theron.
Outros destaques técnicos
O filme com certeza receberá muitas indicações técnicas na temporada de premiações e figurará no Oscar em várias categorias. Dentre elas fotografia do Hoyte van Hoytema, (Oppenheimer, Dunkirk e Interestelar) e a incrível trilha sonora do Ludwig Göransson (Pecadores, Oppenheimer e Pantera Negra: Wakanda para Sempre).
Além dessas categorias, talvez áudio, efeitos especiais, edição e montagem façam parte das indicações.
Veredito final
O que eu não gostei
Definitivamente o formato IMAX. Acho que isso limitou muito o filme como eu citei acima, não precisava ser em 100%.
O roteiro deixou de fora uma das situações fantásticas mais interessantes: Éolo e o saco dos ventos.
Ele entregou a Odisseu um saco contendo os ventos contrários. Quando Ítaca já estava próxima, os marinheiros abriram o saco, pensando que havia tesouros, e foram levados novamente para longe.
Eu trocaria facilmente o tempo de tela da Calypso por essa passagem.
O que eu gostei
Eu adorei a passagem da feiticeira Circe que transformou os homens do Odisseu em porcos. A cena é angustiante e muito bem feita, com performance incrível da Samantha Morton.
Também gostei muito da descida ao mundo dos mortos. A performance de Elliot Page é assustadora!!!
O cavalo de Tria é incrível e como os soldados foram retratados dentro dele e como ele foi levado para dentro das muralhas da cidade foi muito incrível e tensa!
E claro, adorei a cena do Odisseu envergando o arco e atirando a flecha entre os machados e fazendo o som da corda para a sua esposa Penélope saber que o mendigo era ele!
Enfim, para mim, Interestelar ainda é o meu filme do Nolan favorito, mas certamente Odisseia está no meu Top 5!
A dificuldade de se adaptar uma obra tão complexa, Nolan mostrou que é um diretor gigante. Se ele aprendeu com os seus erros clássicos com esse filme, só saberemos nas próximas produções, mas sim, houve uma evolução!
Mas por hora, eu acho que Odisseia merece uma nota 9 de 10!
[Bônus] A playlist EPIC de Jorge Rivera-Herrans
Assim que eu soube da produção e comentei com os meus filhos, minha caçula Analice me apresentou a playlist do artista porto-riquenho Jorge Rivera-Herrans.
Uma obra ímpar, vibrante e profunda.
Vale o play!!!

